Tenho medo Contos & Crônicas

A ideia de restringir a liberdade de imprensa é censura, também é uma espécie de golpe

Um amigo, jovem, com bom nível de informação, outro dia me disse:

– Sou a favor de um golpe militar.

Gelei. Não imaginava que alguém como ele teria essa opinião. Curioso, indaguei outras pessoas. Ouvi várias vezes a mesma frase. Dia desses, assisti na internet a uma fala no Congresso da deputada Jandira Feghali. Em parte lhe dei razão e em outra me aterrorizei. Ela falava justamente na ideia que já circula, segundo a qual um golpe militar seria uma solução para o país. E também que um impeachment da presidente Dilma, decidido apenas pela emoção, equivaleria ao golpe. Concordo com a companheira (posso chamar assim?) Jandira. Um ato político de tal proporção tem de ser alicerçado em provas e bases jurídicas. Até o momento, que eu saiba, não existe prova de que a presidente tenha se envolvido diretamente na corrupção. Pessoalmente, e podem me atirar pedras, acredito que Dilma não é corrupta. Duvido que tenha desviado um real para seu bolso. Não a conheço particularmente. Mas ficarei muito chocado com minha falta de percepção se algo nesse sentido for descoberto. Que ela pode ter fechado os olhos, e sua campanha eleitoral pode ter se beneficiado do esquema, isso, sim, acho possível. Mas são necessárias provas legítimas.

algemasA maior conquista da democracia é o estado de direito. Abrirmos mão de nossos direitos, em prol de uma solução rápida, ah, eu já vivi esse filme. O golpe militar aconteceu quando eu tinha 12 anos. Depois do AI-­5, em 1968, eu adolescente, amigos meus foram presos ou se exilaram. Livros foram proibidos. Meu próprio colégio, experimental, foi fechado, pois incentivava novas ideias. Leis eram impostas. Havia um clima de medo. Morei fora do país. Ao voltar, soube que um amigo meu desaparecera. Ninguém jamais teve notícias. Tenho pavor de viver à mercê de um estado autoritário. A democracia é difícil, soluções demoram, é preciso amadurecer. Eu quero ter direitos. E, entre eles, a liberdade de imprensa. Durante os militares, não se pode dizer que o país era melhor. O pior, ou mesmo qualquer crítica, não podia ser noticiado.

Entretanto, Jandira Feghali afirmou a existência de um complô da imprensa contra a presidente e a democracia. Esse pensamento é a base para a ideia de regulamentação da mídia, defendida pelo PT. Mas é censura, também é uma espécie de golpe. Censura. A ideia de complô é absurda. Antes de me tornar autor de novelas, tive uma longa carreira como jornalista nos principais veículos de comunicação. Escrevi durante 20 anos para uma das mais influentes revistas brasileiras. Nunca me disseram para falar contra fulano, ou a favor de beltrano. Publicavam cada palavra que eu escrevia. Como aqui em ÉPOCA. Escrevo o que penso. Fui jornalista também na Folha de S.Paulo e no Estadão. Nunca me pediram uma nota, ou sofri restrições. Mais recentemente, eu me senti prejudicado por uma matéria da Folha. Escrevi ao ombudsman, que verificou. E fez uma matéria a meu favor, contrariando a jornalista. Isso é democracia, não?

É falsa a necessidade de regulamentação da mídia, inclusive porque as leis para nos proteger já existem. Eu mesmo processei um canal de televisão que me ridicularizou. Ganhei a causa. E o pagamento de danos morais. Obviamente, os meios de comunicação expressam opiniões. Verifique, são diferentes entre si. Leia num fim de semana todas as revistas e jornais. Assista aos noticiários. Às vezes, num mesmo veículo, colunistas divergem. Não há complô. O complô é de quem quer restringir a liberdade de imprensa. Há medo de notícia. As notícias sim, podem derrubar um governo, porque levantam provas que podem ser base para um processo jurídico. Aconteceu até nos Estados Unidos, com Nixon, no escândalo do Watergate. Regulamentar a mídia é impedir que se fale de um escândalo como o do petrolão?

Nós temos o direito de saber, sim. As leis já protegem quem é achincalhado sem base. Até mesmo a internet.

Assim, o discurso da deputada me provocou duas emoções contrárias. Concordo com sua oposição a um golpe e a um impeachment sem bases legais, jurídicas. Discordo de que exista um complô na mídia, simplesmente porque não há. Eu sempre escrevi o que quis, em todos os órgãos onde trabalhei. Uma única vez o diretor da Folha, Otávio Frias Filho, me chamou para saber sobre uma nota que eu dera de um político, que reclamara. Expliquei exatamente quais eram minhas informações. Recebi um cumprimento, e a nota não foi desmentida

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Observações

  1. Prezado Walcyr, me desculpe a intimidade,mas são coisas do mundo moderno Vc não me conhece mas por acompanhar muitos dos seus trabalhos escrevo como se tivesse fazendo para um amigo de longa data, mas acho que a ressalva deve ser feita por educação, pois Vc pode não gostar.
    Li seu texto, como sempre muito bom, mas desta vez me senti na obrigação de entrar no debate. Fui militar e acrescento que tenho muito maior medo do que Vc, pois sei bem de que material humano é feita as nossas Forças Armadas Hoje. E realmente as pessoas, que pedem um golpe militar, demonstram apenas desconhecer a situação que o desgoverno vem levando a Nação.
    O maior medo que sinto é porque conheço o quão perto a realidade esta ficando das condições adequadas a este tipo de golpe.
    A bem da verdade Walcyr, não ocorreu golpe ainda porque a oficialidade das Forças Armadas não acredita no governo, se acreditasse já teria dado o golpe, já teria estabelecido algo muito próximo do governo Cubano, que nossos atuais dirigentes dizem claramente ser tão bom!!!!!
    MAS essa oficialidade vem sendo mudada por formação ruim e por falta de recursos.
    Acrescento, que fiquei muito mais preocupado, quando Vc que tem a capacidade de escutar o Inconsciente Coletivo e colocá-lo em uma novela, não ter visto que quando um funcionário do Estado usa o estado em seu proveito pessoal é crime de prevaricação. “a presidente da republica” não se licenciou do cargo durante a campanha e foi na televisão mentir sobre a situação econômica, sobre a situação de infra-estrutura e outras, que hoje ela tenta modificar como se não tivesse nenhuma responsabilidade no governo anterior, precisamos de mais provas??? Não sou a favor do impeachment porque não temos outro para governar, todos são farinha do mesmo saco.
    E para não estender este e-mail fico com mais medo ainda quando vejo e imprensa não se comportar livremente, não se manter nos fatos e querer ela própria manipular as informações, veja a própria ÉPOCA, se não for o Guilherme Fiuza quem tem coragem de falar abertamente que o Governo vem fazendo um monte de besteiras??? A maioria são reportagens tão suaves que um desavisado acaba achando que é implicância, e não denuncia, na sua grande maioria graves e comprovadas.
    Caro amigo ninguém melhor do que Vc para saber quando a arte imita a vida e quando a vida imita a arte, as verdades sempre são secretas!!!!!

  2. Vania S.M.Lobato Diz: abril 4, 2016 at 12:34 pm

    Prezado Jornalista ou Escritor ou Cronista

    Admiro seu trabalho, principalmente, suas crônicas, q. não leio mais, porque fiquei com a veja e a super interessante( vc. ou o Sr. ) lê esta revista.

    * aquela da atriz q. não o recebeu no camarim interpretava sua peça; das arvores da cidade, da plástica no rosto, do amigo do interior … e tantas outras.

    Compartilho das suas opiniões, em parte.

    Uma certa vez fui do bairro de Santana – zona norte até um colégio com nome pomposo de reconhecido autor espanhol no Morumbi do outro lado da cidade, só para ouvi-lo.

    Entra no meu “facebook”: deixa uma opinião a respeito deste momento do país; ficarei orgulhosa em divulgá-lo, seja contra ou a favor, mas tenho certeza, que será uma resposta bem colocada.

    P.S sou mãe, palmeirense e advogada. E, nas horas mais estranhas, tenho umas ideías muito loucas q. gostaria de colocar em forma de estórias.
    Bjs e abs
    Vania

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