A Noiva Morta Contos & Crônicas

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Já me acostumei com o cheiro da decomposição, com a carne mole e a pele que se desprega dos músculos. Até o cheiro das fezes que explode de intestinos abertos faz parte do cotidiano. Não suporto, entretanto, o cheiro do vômito. Meu vômito. Após três anos, ainda vomito algumas noites. É insuportável e desagradável. Meu chefe me olha com dó. Sou motivo de piada para os enfermeiros, motoristas e policiais que chegam acompanhando as macas. Não admitem a minha fraqueza. Todos – até as duas mulheres que trabalham no plantão – sentem-se fortes diante de mim, porque dou esse sinal inaceitável de sensibilidade. Conta-se que F., um enfermeiro mulato, alimentou durante meses um caranguejo preso numa caixinha de vidro. Atirava restos de gordura, pedacinhos de tripa, enquanto o bicho engordava.  O bicho tornou-se o mascote da morgue, e muitos gostavam de ver quando ele agarrava um pedacinho de carne anônima com as tenazes, as gazes sempre mergulhadas numa mistura de excremento e sangue. Adaptação ao meio ambiente. Um dia, F. cozinhou o caranguejo e comeu. Só comentaram o assunto pelas costas, ninguém o achou especialmente estranho. Adaptação, como o caranguejo. Mas eu vomito, e isso é estranho, é inacreditável, prova que sou diferente, e a diferença tem pouco lugar nesse mundo. Acontece de repente, muitas vezes sem que eu tenha tempo de correr para o banheiro. Sujo o uniforme branco, o avental de borracha. Muitas vezes, vomito sobre o cadáver que devia examinar. Tenho raiva e nojo de minha própria fragilidade. Procuro ser forte e cínico, evito trocar olhares com S., o motorista da noite. Comentam que, ajudado por dois enfermeiros, ele rouba e vende cadáveres anônimos. Cadáveres ou mesmo orgãos separados são disputados pelas escolas de medicina de todo o pais. Sem cadáveres, como estudar os segredos das tripas, os labirintos das veias? O diretor faz vista grossa, odizem receber alguma coisa por fora. Tem casa no litoral, dizem que perto da praia. Seria impossível com o salário de patologista público. Imagino o homem sentado na mesa, aos finais de semana, rodeado pelos netos, sorrindo para filhos e noras, cercado pelos tijolos comprados com fígados, pulmões, pés e mãos destacados de corpos e vendidos a granel. Todas as noites penso nisso, todas as noites quero sair daqui. Não é o que imaginava quando escolhi medicina. Em meus projetos adolescentes, supus que me especializaria em cirurgia plástica. Nas revistas que mostram as vidas dos ricos, já escolhera a minha. Casa, melhor dizendo, mansão à beira mar, em uma ilha onde eu colecionaria pássaros exóticos e receberia estrelas da televisão. Meu apartamento tem vinte metros quadrados e cheira a mofo. A escada do prédio sem elevador, a mijo. Mas que me importam o mofo e a urina diante do odor dos cadáveres e dos produtos químicos que os conservam enquanto, burocraticamente, analisamos as causas mortis? Que são as mesmas, noite após noite. Neste instituto médico legal onde entrei por concurso, raramente aterrisa um morto diferente. São as legiões de mendigos transidos de frio e pneumonia, de febre e indigestão. Vêem os afogados, sem marcas, sem donos. Muitas vezes nus, talvez seja mais fácil matá-los assim. Enforcados – muitas vezes, homossexuais sem família. Eu me espanto: porque garotos desconhecidos saboreiam espancar e enforcar seus amantes ricos? Faço teses: enforcar seria um forma de lhes tirar a voz, para que não revelassem as noites de prazer obscuro? Eu me lembro de um amigo que se apaixonou por um desconhecido. Pouco o via, na época. Eu trabalhava de noite, e ele vivia dos pais. Mais tarde soube que comentava com os mais próximos sobre o novo grande amor de sua vida. Nunca, porém, o apresentou. Seu corpo chegou negro e inchado, após cinco dias esquecido no apartamento. Sufocado pela própria cueca, pés e mãos amarrados. Riram de mim quando corri para o canto vomitar, e o diretor disse que me faria o favor, já que se tratava de conhecido. Cortou o corpo todo para descobrir a causa mortis, que era óbvia. Passei dias no telefone, tentando entender a história, mas nunca entendi, não completamente, porque certas coisas, a gente entende com o coração, mas não compreende com o sentimento.  O assassino foi encontrado meses depois. Meu amigo fora apenas mais um de uma série de assassinatos para roubar televisores, cafeteiras, e alguns trocados.  Os apaixonados não imaginam que se mata por pouco. Adolescentes jogadas na rua depois de se internarem em hotéis suspeitos. Enfiam agulhas de tricô na vagina. Tomam remédios que provocam contrações e sangram fetos até a morte. Quando o gerente descobre, manda ferver as roupas de cama e atirar a menina em algum canto, para fugir das responsabilidades. Suicidas com a cabeça estourada após uma queda de quinze andares. Algumas vezes, senhores de classe média sem documentos, vitimados por um ataque cardiaco. Drogados de jeans com dois filetes de sangue seco saindo das narinas após a overdose. Esses, são procurados. Todas as madrugadas, um desfile de pais, irmãos, vizinhos e amigos da hora da necessidade atropela-se no balcão de entrada. Descrevem a garota que devia ter chegado em casa no meio da tarde. O filho que saiu comprar uma revista. Alguém. Corações que batem na esperança de ouvirem um não. “Não, ninguém com essa descrição deu entrada!”. “Não, não aqui”. Porque aqui, nos corredores de pintura envelhecida onde ecoam meus passos, atrás das portas pesadas, é a última parada, é onde não resta mais a esperança. Nem para mim, que estudo burocraticamente os estomagos com restos de refeições, pedaços de carne, fios de macarrão mastigados, bolos de arroz, noite após noite, vendo comida/detritos, sentindo o cheiro nojento do molho de tomate dentro de intestinos podres.

De inicio, pensei que era apenas mais um corpo. A maca passou coberta pelo lençol. Um dedo de mulher, com a etiqueta, com o número. Caminhei burocraticamente, entre na sala com a lampada de 60 watts ligada. Uma espécie de aquário de vidro guardava duas mãos decepadas, mergulhadas no formol. Em outro, o fígado. Algum pedido especial da polícia.  Quando descobri o lençol, ouvi um ruido de surpresa. F., o enfermeiro, caminhou rapidamente para a porta, e saiu. Só então olhei o cadáver. Era a mulher mais bela da minha vida.  Nua. Cabelos pretos, caindo em cascatas. Seios em forma de cálice. Uma montanha de pelos na vulva. Pés feitos por um escultor. A palidez das mortas lhe caia bem, porque tinha a pele de leite. Mais fascinante que tudo: os mortos costumam perder a expressão a tal ponto que após algum tempo, é inútil fazer uma foto. Pois na foto do morto não se reconhece o vivo. Certos brilhos, certas contrações de personalidade, certas sombras que recaem nos ângulos do rosto, tudo desaparece. Dizem os religiosos que a alma parte. Mas, se não existe alma, alguma coisa há, que abandona o cadáver em uso. Ela, não. Percebia-se no lábio bem marcado o sinal de um sorrio. Nos olhos fechados, uma certa paz. Nenhum sinal aparente de causa mortis. Apenas um risco que nascia sobre um dos seios, e envolvia o bico. Um risco profundo. Não de faca. Mas de algum objeto pontiagudo, como se alguém quisesse verificar a integridade daquelas carnes, quando viva. Deslizei meus dedos enluvados sobre a pele, mas não foi suficiente. A borracha me atrapalhava. Retirei a luva direita, e percorri com o dedo, levemente, o traçado daquele corpo. Quando cheguei na vagina, hesitei um instante. Depois, delicadamente, justificando perante minha própria consciência que se tratava de um dever profissional, desci o indicador pela vagina e penetrei as carnes amolecidas pela morte. Era virgem.

A porta se abriu, mas retirei a mão no instante preciso. Peguei o bisturi. F., o enfermeiro e S., o motorista, entraram precipitadamente. S. começou a falar aos borbotões, num discurso que parecia sem lógica mas que, logo decifrei, havia apenas um sentido. Não se encontravam cadáveres em tão perfeito estado, argumentou. Assim, tão jovem e bonita, valeria muito. Olhos estreitos, confidenciou que já era tempo de nos conhecermos melhor. Eu não devia ser tão sério, cu de ferro. Não queria viver bem? Todos tinhamos o direito de viver bem, e cadáveres reclamados não podiam dar opinião. Nem deviam. Melhor servirem a estudantes, médicos, escolas sérias, do que serem enterrados e virarem podridão. Era um ganho justo. O primeiro, de muitos, pois ninguém era tão rigido se não havia reclamação. E quem reclamaria uma moça nua e sem identificação? Silenciei durante um instante. Contemplei a morta. Só então observei que em torno do mamilo, alguém fizera um traço mais profundo, como se quisesse desatarraxar a ponta do corpo. Levantei a cabeça, encarei S. O enfermeiro estava quieto, a uma distância segura, como se não fosse cumplice. Mas vi que também contemplava o corpo. S. tentou um sorriso de camaradagem. Tive a certeza de que a moça não permaneceria virgem muito tempo. Ouvira histórias. Homens que nunca poderiam sonhar com certas mulheres, contentavam-se em tê-las quando flacidas e sem vontade, pura carne sob seu controle. Como S. que, inconscientemente, deixara a mão cair sobre a calça, em frente ao pênis. Tive ciúme.

A sensação de ciúme foi o primeiro sinal do que acontecia dentro de mim. Eu me apaixonara pela morta. Nunca deixaria que vendessem aquele corpo para ser corrompido em escolas, para ser estraçalhado enquanto mostravam a estudantes estereis como retirar um útero, como funcionavam os pancreas, os rins.   Mais ainda, nunca permitiria que a tocassem. Respondi rispidamente. Ele respondeu com uma ameaça velada. Saiu, seguido pelo enfermeiro. Com o bisturi na mão, hesitei. Para salvar aquele corpo, eu devia rasgá-lo. Rompê-lo, para que perdesse o valor de venda.  O magnetismo, o desejo. Pois o desejo acabaria com a barriga aberta e os intestinos expostos. Confesso que ainda aproximei o bisturi da pele, e não pude. Toquei novamente o rosto, os cabelos, os seios, a vulva. O mistério da morte residiria naquele risco do seio, certamente. Mas jamais saberia como, porque eu não tinha coragem de desvendar através daquelas camadas de pele. Percebi que me restava pouco tempo. De manhã, S. poderia conseguir uma ordem do diretor, e me tomar o cadáver. Cobri rapidamente o corpo com o lençol e arrastei a maca através dos corredores. Felizmente, na madrugada, as pessoas não exibem a mesma atitude laboriosa do periodo diurno. Ficam nas salas, nos departamentos, nos arquivos, à espera que a noite termine. Fugi. Sabia que no compartimento/geladeira onde ficavam as gavetas estaria livre. O encarregado tinha vinte anos de emprego, e costumava dormir em macas abandonadas nos corredores. Rapidamente, abri uma delas, vazia. Peguei a morta nos braços. Os mortos costumavam pesar mais que os vivos, mas reuni todas minhas forças. Com meus braços, senti suas nádegas, suas vértebras. Quase perdi o equilibrio mas, mesmo então, foi como se um pequeno choque eletrico passasse por mim. Quase vida, pensei. Escondi o corpo na gaveta, e tirei a etiqueta. Em seguida, busquei  o cadáver de outra mulher. Localizei e troquei as etiquetas. Entre todas aquelas gavetas, no clima gélido, ela estaria segura para sempre, congelada. Corri para o banheiro, como se fosse vomitar. Fiz ruidos, se alguém estivesse ouvindo poderia pensar que terminara a autopsia. Voltei através dos corredores. Meu turno terminava. Tomei um banho, abri meu armário. Vesti-me. Na entrada, vi um homem alto, com um casaco de lã escuro. Com uns trinta anos, falando calmamente, a máscara do rosto sem movimentos. Gelei. Tive a intuição de que era por ela que procurava. Aproximei-me quando ele se distanciava, levado por um enfermeiro. Comentei calmamente com a recepcionista, que guardava as fichas para voltar para casa. Era um tio procurando por uma sobrinha. A descrição conferia. Mas a mudança de turnos livrou-me do confronto. Outro médico procuraria o cadáver. Encontraria outra mulher e o homem iria embora, com a certeza de que ela não estava lá. Tive o pressentimento de que aquele tio jamais deveria encontrar aquela sobrinha.

Em meu apartamento, tomei mais dois banhos. Raspava a pele, como se fosse meu primeiro dia no Instituto. Deitei, mas minha cabeça revoltou-se em sonhos extravagantes. Não lembro, nunca lembrei de nenhum. Mas a imagem de uma moça nua com cabeços negros aparecia em retalhos, estraçalhada pela lembrança. Passei o dia à espera. Saia à janela, contemplando as nuvens, esperando que elas se tornassem mais densas, e que com o chumbo anunciassem a noite. Nem comi. Todo meu ser esperava o encontro, com o coração batendo forte. Temia que a roubassem. Que a beijassem, que se deitassem com ela. Mais que tudo: temia que ela não me quisesse. Pois todo meu sentimento era paixão.

Cheguei antes do meu período. Um recado do diretor. Precisavamos conversar. Entrevista para o final da tarde do dia seguinte. Sem dúvida, S. Talvez tivessem procurado o cadáver. Agi como se nada houvesse. Cumprimentei o enfermeiro e o motorista como se nossa conversa tivesse sido apenas uma tentativa de entendimento, e não estivesse em jogo o corpo de uma princesa. Percebi que trocaram um olhar. Para minha felicidade, ocorrera um acidente de onibus, e vários corpos deram entrada logo no início da noite, com cabeças estilhaçadas, braços separados, torsos cortados e queimados. Junto ao corpo de uma menina, havia quatro braços infantis e passei algum tempo tentando ajustar os corretos, como se faz com manequins. Há uma ética não escrita segundo a qual, na medida do possivel, cada corpo deve ser enterrado com sua própria cabeça, mesmo que algumas sejam irreconhecíveis. Foi uma noite tensa. O motorista passou todo o tempo às voltas com os acidentados. Ao final da quarta autopsia, F., o enfermeiro caiu sentado e pediu uma hora para descansar. E eu, como tinha condições de continuar, sem um intervalo?, admirou-se. Sorri. Era o que eu desejava. Os acontecimentos tinham ajudado meu plano, embora só agora percebesse que tinha um. Cuidadosamente, escolhi uma senhora madura, morta no acidente e retirei a pele enegrecida de seu rosto, como quem arranca uma máscara. Busquei outra e arranquei a pele das mãos como quem descalça luvas. Seria o suficiente.

Quando todos estavam exaustos a abatidos pelo excesso de trabalho (não de mortes, pois essa era a rotina), corri à geladeira. Abri a gaveta cautelosamente. Ela estava lá. Perfeita. Inteira. Carreguei o corpo, agora duro e gelado, de volta à sala de autopsias. Pus na maca, e cobri com o lenço. Mais um entre os corpos do acidente. Mais um, apenas. Continuei a trabalhar por mais algumas horas, enquanto minha noiva descongelava. De quando em quando, aproximava-me, tocava a pele sob o lençol, sentia a carne. Aos poucos fui percebendo que, sim, estava certo. Pois aquela morte tinha uma qualidade mágica. Um calor, que fulgurava através da pele, e fazia com que o gelo se derretesse mais depressa. Foi até a porta. Travei por dentro, como se fosse um gesto de precaução ou esquecimento. Tirei o lençol do corpo e contemplei minha morta. Tirei minhas roupas, colocando cada peça sobre uma maca vazia, deixando que meu corpo branco e esguio se misturasse aos cadaveres queimados, aos braços contorcidos e às expressões de horror e surpresa dos acidentados. Fiz questão de arrancar as meias e aproximei-me, nu. Seria engano, ou seu sorriso podia ter aumentado?

Beijei seus lábios de leve, sentindo a frieza delicada daquela pela. Seria engano, ou houve realmente uma leve pressão de sua parte? Beijei seus olhos. Beijei seu seio – não o marcado pela incisão, com o mamilo mutilado. Apenas o outro, o perfeito. Senti meu penis, ereto. Deitei sobre ela, abraçei o corpo e por instantes, esqueci a vida. Foi doloroso, mas ao mesmo tempo que a penetrava, era como se fosse engolfado por uma escuridão.  Eu me perdi dentro dela. Quando terminei, meu coração batia tão assustadoramente, que foi como se o dela batesse também. Retirei o penis e observei, pasmo, um filete de sangue que escorria entre suas pernas.

Ouvi vozes. Batiam na porta. Respondi rapidamente, cobri o cadáver. Vesti-me enquanto conversava com dois enfermeiros do outro lado. Ainda fingindo, demorando, inventando desculpas, corri até a máscara e as luvas de pele que deixara preparadas. Coloquei rapidamente sobre seu rosto. Peguei um jarro de sangue e, pedindo desculpas, atirei sobre seu corpo. Nada a distinguiria das outras acidentadas.

— É para te salvar – expliquei.

Abri a porta. Sim, eu sentara numa cadeira no fundo e adormecera. Riram. O medroso que vomitava estava mudando. Ficando calejado, pois dormira entre os acidentados. Respondi amigavelmente, como se fosse um deles. Passei o dia na morgue, cuidando de minha noiva. Tive a reunião com o diretor,que me perguntou diretamente sobre o cadáver. O enfermeiro falara numa moça belissima. Justamente, o tio de alguém com essas caracteristicas andava desesperado em busca dela. Afirmava – e ninguém sabia como podia ter tanta certeza, a não ser que… –mas sim, afirmava que estaria lá, no Instituto. Só podia ser. Era um homem com conexões. Eu fora o último a ver o cadáver. Senti meu estomago se revoltar, mas respirei fundo. Imaginação, garanti. Levei o diretor até a geladeira. Mostrei a mulher com a etiqueta. O enfermeiro conferiu. Não, não parecia com a que tinha visto. Mas são tantas, talvez estivesse enganado. A luz, a noite, o cansaço. Principalmente, os rasgos de escuridão que formam angulos sobre rostos e corpos, alterando a beleza, a idade. Despedi-me e, pela primeira vez, senti simpatia no meu chefe. Eu respondera como um deles. Deixara de ser diferente, e isso me fazia melhor.

Poucos cadáveres foram reconhecidos no onibus. A maioria eram romeiros pobres, em busca dos milagres de uma santa. Talvez fosse um milagre, essa morte rápida que substituia uma vida feita de pequenas mortes cotidianas. Mortes de desejos, mortes de esperanças, mortes de qualquer possibilidade. O Estado forneceu caixões simples. À distância, eu persegui o enterro. Com um sentimento de alivio, vi as pás de terra sendo atirados. Agora, sim, ela estava salva daquele encontro com o tio. Salva de todos. Era só minha.

Os meses foram mais fáceis que todos os anos anteriores. A morte virou rotina. Discretamente, permiti que S. levasse alguns cadaveres mais conservados. Retirei também rins, pulmões e cérebros, a seu pedido, para satisfazer encomendas. Mesmo o mais amoroso dos familiares não percebe se, durante a autopsia, foram roubados alguns orgãos ou as visceras daquele que jaz. Os cortes são costurados, cobertos com ataduras. Começei a poupar para comprar a casa de minha mãe. Não roubava por luxo. Minha boa vontade facilitou minha vida perante o diretor. Começei a ter mais direito a turnos diurnos. Folgas, que antes eram raras e agora dadas como recompensa.  Mas, durante todo esse tempo, foi se avolumando uma sensação. Minha história não estava terminada. Eu esperava.

Certa madrugada, dormia em meu apartamento, quando acordei com uma sensação de premência, de ansiedade. No meu sonho, ouvira um choro. Lembrei-me que faziam exatamente nove meses que ela partira. Em seguida, mesmo em estado de vigilia, o som do choro foi se avolumando, preenchendo as paredes e latejando no meu cérebro. Nem sei como me vesti. Retirei o carro da garagem e voei pelas ruas sem dar importância a semáforos. Era uma luta contra o tempo. Estacionei na parte de trás dos muros do imenso cemitério popular onde ela estava. Mas eu marcara bem o lugar, quando seguira o enterro. Assustado, tremulo, abri o bagageiro do meu carro. Para minha surpresa – ou não seria surpresa? – ali estavam a picareta, a pá que eu precisava. O resto, estaria dentro do carro. Há dias eu notava um pacote que não abrira ainda. Corri para o muro. Atirei-me contra ele, com a força e a loucura dos momentos fundamentais. Pulei do outro lado e corri entre as cruzes, coroas de flores, quebrando pequenos vasos de porcelana com flores de plástico, derrubando fotos envelhecidas em molduras, pisando sobre a terra revolvida dos tumulos recentes. Lá estava a pequena sepultura de cimento, sem nome, mas com a pequena marca que eu fizera – quando? O choro, mais forte, engolfava minha barriga. Dava vontade de chorar também e desistir. Mas não. Arrebentei o cimento e com a pá, com uma força que eu não conhecia, retirei as camadas de terra. Não eram tantas. Para os mortos sem nome, que só tem direito à paz eterna durante poucos anos, as covas não são profundas, pois logo serão abertas. Bati no caixão de pinho vagabundo, recoberto por um pano roxo.  Abri. Vi uns pedaços de carne esverdeada. Era ela, já sem a palidez erótica da morte recente. O cheiro de carne morta penetrou meu corpo, mas não desisti. Afundei minhas mãos entre suas pernas, cobertas por um liquido viscoso e retirei o pequeno ser que acabava de nascer, abriguei-o nos meus braços. Meu filho, que chorava, quase sufocado. Meu filho, que gritava e vivia. Meu filho, feito de carne podre.

 

JUNHO DE 2000

 

 

 

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Observações

  1. Lucas Moreira De Paula Diz: julho 31, 2015 at 7:30 pm

    Como o senhor consegue ser genial em todos os gêneros ?

  2. Heloisa Helena Diz: julho 31, 2015 at 10:14 pm

    Walcyr, um autor sobre-humano. Impressionada com a sua sensibilidade!

    Abraço.

  3. Sensacional.

  4. Fiquei maravilhada com esse conto ,em êxtase.

  5. Uau…Mais uma vez você me surpreendeu. São tantos elementos nesse conto. A rotina dos IMLs , há anos e anos o mercado negro de orgãos movimenta muito dinheiro, é sabido por muitos e nada se faz. Infelizmente só ouvimos histórias mas não há provas.
    A mudança da personagem ao longo da historia demonstra como somos vulneráveis frente aos próprios desejos transpondo os limites morais e éticos.
    Adorei, simples assim!
    Parabéns Walcyr mais uma vez por nos presentear com sua obra.

  6. José Carlos de Oliveira Diz: Abril 3, 2017 at 11:33 am

    É que vc tem carne fraca, ora essa!!

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