Distração em forma de otimismo Mídia

Por Maurício Stycer, na Folha de S. Paulo

Nos últimos anos, a Globo procurou convencer analistas de mídia que não faz sentido comparar a audiência das novelas atuais com as do passado. O discurso oficial propala que os tempos são outros, os hábitos mudaram, a concorrência se diversificou e nunca mais um folhetim vai alcançar um pico de 70 pontos no Ibope, como ocorreu no último capítulo de “América”, em 2005.

O sucesso de “Êta Mundo Bom!”, nova produção das 18h, fez a emissora mudar de opinião e informar que, desde 2010, nenhuma novela do horário alcançou números tão bons em sua primeira semana.

Os índices dos primeiros seis capítulos justificam o entusiasmo. Houve um crescimento de 26% em relação à média no horário das quatro semanas anteriores (de 19 para 24 pontos), com reflexos positivos no resto da programação noturna da emissora (cada ponto em São Paulo equivale a 69,4 mil residências).

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A trama de Walcyr Carrasco é uma adaptação do filme “Candinho” (1953), por sua vez livremente inspirado no “Cândido” (1759) de Voltaire (1694-1778). Foi o terceiro dos longas-metragens que Amácio Mazzaropi (1912-1981) fez nos estúdios da Vera Cruz, com direção de Abílio Pereira de Almeida.

A novela também recorre a “O Comprador de Fazendas” (1918), conto de Monteiro Lobato (1882-1948), incluído em “Urupês”.

Ambientada na década de 1940, “Êta Mundo Bom!” conta a história de Candinho (Sergio Guizé), que troca a vida pacata em uma fazenda em Piracema, onde foi criado, pelas aventuras e dissabores na capital São Paulo.

Na cidade grande, o jeca reencontra o professor Pancrácio (Marco Nanini no papel vivido por Adoniran Barbosa no filme de Mazzaropi), uma espécie de mentor, responsável por fazer Candinho acreditar que “tudo que acontece de ruim na vida da gente é para melhorar”.

Carrasco é especialista em novelas de época que misturam melodrama e comédia em tom infantil, todas bem-sucedidas em matéria de audiência (“O Cravo e a Rosa”, “Chocolate com Pimenta”, “Alma Gêmea” etc.).

Também é hábil, como poucos, em entregar ao público exatamente o que ele deseja ver, da forma mais simples e direta possível, sem maiores ambições estéticas. Suas novelas são repletas de cenas de tortas na cara, casamentos desfeitos no altar e outras confusões que agradam aos fãs de comédia pastelão.

Não por acaso, nos nove primeiros capítulos de “Êta Mundo Bom!”, já houve três cenas de personagens caindo de cara na lama de um chiqueiro.
O casamento de Carrasco com Mazzaropi me parece perfeito. Em janeiro de 1970, o repórter Armando Salem, da “Veja”, perguntou: “O que você acredita oferecer para o seu público?”. E o criador do Jeca respondeu: “Distração em forma de otimismo”.

Naquela época, os ídolos de Mazzaropi na televisão eram Silvio Santos e Hebe Camargo: “Eles vieram do nada, como eu. Ganham dinheiro para divertir o público, e divertem. Não adianta nada a crítica chamar a Hebe de burra. Ela nunca disse para ninguém que é professora. Não adianta dizer que ela só fala bobagens –o público gosta do que ela fala. E quem manda é o público.”

Na sua ingenuidade, o sonhador Candinho é, mais uma vez, o personagem certo na hora certa.

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