Walcyr Carrasco comenta sucesso de ‘Eta mundo bom’, em reta final Mídia

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Publicado em O Globo

No ar desde janeiro, “Eta mundo bom” é a novela das 18h mais vista dos últimos anos, segundo o Ibope. Em São Paulo, a audiência média (27 pontos) é a maior desde 2007 (com “O profeta”). No Rio (30 pontos), desde 2009 (“Paraíso”).

Agora, a novela de época escrita por Walcyr Carrasco entra em sua reta final. “Eta mundo bom” termina no próximo dia 26, dando lugar a “Sol nascente”, de Walther Negrão. Inspirada no conto “Cândido”, lançado em 1759 pelo filósofo Voltaire (1694-1778), a trama parte da máxima de que “tudo que acontece de ruim na vida da gente é para melhorar”. E é justamente a isso que Carrasco credita o sucesso da história, protagonizada pelo caipira otimista Candinho (Sergio Guizé), cujo melhor amigo é um burro.

— Acho que a novela avançou ao mostrar que é possível, sim, fazer uma história apostando em valores, em otimismo, em leveza e esperança. Queria uma trama que despertasse uma sensação boa na pessoas e acho que conseguimos — diz o autor.
“Eta mundo bom” é o segundo sucesso seguido de Carrasco. E uma tremenda guinada. Ele ainda acabava de escrever a elogiada “Verdades secretas”, trama das 23h recheada de sexo, drogas e outros tabus, quando começou a se envolver com a novela das 18h.

— O processo criativo é maravilhoso justamente porque permite navegar por vários gêneros e estilos. Escrevo livros infantojuvenis, também escrevo teatro adulto e infantil — lembra ele, que já tem um novo projeto em mente, assim que colocar o ponto final na novela. — Vou lançar um livro sobre São Francisco de Assis.

A seguir, Carrasco analisa a trama e seus personagens, conta o que mais o surpreendeu na reação do público e faz mistério sobre a morte de Gerusa (Giovanna Grigio), que sofre de leucemia.

Como você analisa o espectador da trama das 18h?

Jamais analiso espectador, tipo de público. Isso eu deixo para o departamento de pesquisa, de marketing. Eu trabalho intuitivamente. É a minha intuição que fará ou não a conexão com o público. Mas em última análise posso dizer que a história que escrevo é uma história a que eu gostaria de assistir.

Por que acha que as novelas de época têm tanta popularidade no horário das 18h?

Talvez porque justamente os valores sejam definidos, e exista uma saudade bem grande do tempo em que bastava a palavra dada para se fazer um negócio. A safadeza da atualidade cansou, não?

O horário das 18h não permite certas ousadias. Como construir uma vilã como a Sandra (Flávia Alessandra) dentro desses limites?

Jamais pensei em ficar nos limites. Quando uma história surge na minha cabeça, ela já vem de maneira formatada, com a cara do horário, seus personagens. Vem pronta. Tanto que nunca ofereço um livro meu para ser adaptado, e todas as vezes que pediram e que deixei que adaptassem para o teatro, por exemplo, fiz sem interferir. Justamente porque já está tudo ali.

Em “Amor à vida” (2013), uma de suas sacadas foi perceber a empatia de Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) com o público e investir no casal. E, agora, qual foi?

Para mim, a grande surpresa foi a força do “cegonho” (como a personagem Mafalda, de Camila Queiroz, chama o orgão sexual masculino), que se transformou num personagem. Surgiu sem planejamento e foi tomando espaço dentro da história.


Você acha que foi a pureza de Candinho que de certa forma agradou ao público neste momento crítico do país?

Eu acho sim que buscamos valores positivos. E que Candinho representa os valores que nós todos queremos de volta ao cotidiano, à vida pública. E a amizade dele com o burro é como uma amizade com animal, tanta gente tem. Tanta gente não fala com cachorro? Eu falo com a minha cachorra, Luna.

Discute-se muito a necessidade de “humanizar” os personagens (criar tipos complexos, como as pessoas “reais”). E em “Eta mundo bom” eles são maniqueístas. Por que acha que isso funcionou?

A opção por personagens bem claros e definidos faz parte do gênero da novela que escrevi. É um melodrama com humor, e no melodrama os personagens são definidos claramente. Quanto à questão de humanizar personagens, sempre tive dúvidas a respeito disso. São discussões intelectuais, mas que na minha opinião devem passar longe do sentimento do criador. Um criador não pode trabalhar amparado em teses.

E com relação à doença de Gerusa? Geralmente quem morre em novela são vilões…

Deixarei que o público saiba o que vai acontecer no último capítulo da novela. Mesmo porque morte é um conceito muito relativo. A verdadeira Gerusa realmente existiu, foi uma professora vizinha da minha família quando eu era criança em Marília (interior de SP). A história dela me marcou muito e a de seu noivo também.

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