O Excesso De Cursos Universitários Diversos

Publicado na Revista Época
Sofri protestos ferozes no Instagram. Tudo porque achei excessiva a briga contra a blogueira Gabriela Pugliesi e seu companheiro, Erasmo Viana. A moça, como outras, mostra seu estilo de vida e sua rotina de alimentação e exercícios físicos. Está sendo processada com a acusação de propor atividades de educação física sem curso universitário correspondente. Ele é apedrejado por ensinar mahamudra, uma prática que une ioga a exercícios físicos mais intensos. Já quis fazer, é praticado em parques. Os adeptos pulam em galhos. Desisti. E se um galho não suportasse meu peso?

As reações ferozes na internet partiram de profissionais da educação física. Não posso julgar o caso da blogueira. Se está sendo processada, compete à Justiça a palavra final. Mas achei as reações injustas. Nunca fui contra a educação física como curso universitário. Mas hoje, na internet, é comum que as pessoas mostrem seu estilo de vida. Não existe exigência de faculdade para que alguém faça demonstrações de judô, tai chi chuan, ioga ou dança. Todas essas atividades mexem com o corpo e podem machucar. Quem já viu o pé de um bailarino sangrando após uma apresentação sabe disso. O pilates, que virou febre, não exige diploma. Por que o mahamudra seria diferente?

Na minha opinião, existe um número absurdo de cursos universitários. Para ser ator, é preciso o registro profissional, o DRT. É fornecido automaticamente após um curso de nível universitário. Mas há uma brecha: os sindicatos podem dar quando há comprovação de trabalhos. Acho a exigência do DRT descabida. Há talentos que surgem de forma surpreendente. Assim como diplomados que não conseguem interpretar uma linha. E os bons cursos de antigamente? Muitas moças (poucos rapazes) faziam a chamada Escola Normal, logo após o 8o ano. E podiam dar aulas do 1o ao 4o ano. Foi assim que muita gente custeou a faculdade. Muita professora ajudava na despesa da casa. Acabou. Meu irmão fez um curso técnico de químico industrial, de três anos. Viveu dele. Tornou-se um grande químico, participou de processos de transferência de tecnologia de outros países para o Brasil. Já se aposentou. Atualmente, teria de passar pela universidade. Na época, começou a trabalhar aos 18 anos e não parou mais. Por que tantos cursos técnicos viraram faculdades? No caso da medicina, engenharia, acredito que a universidade seja fundamental. Em Direito, não basta o curso. De diploma na mão, o jovem precisa passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Nada mais justo. Vale o mesmo para educação física, nutrição. Mas ator? Se um médico errar, coloca a vida de alguém em risco. Se o ator for ruim, só me deixa de mau humor. Fiz faculdade de jornalismo. Mas tem sentido exigir diploma de jornalismo? É um assunto controverso, com muitos vaivéns. Um economista que escreva sobre o tema certamente será muito melhor que eu, incapaz de somar dois e dois. O jornalismo se caracteriza por exigir profissionais de várias áreas, de repórter de política a crítico de moda. Precisam de diploma? Para quê?

Eu seria incapaz de listar todos os cursos universitários absolutamente ridículos existentes no Brasil. Por exemplo: um amigo fazia a faculdade de quiropraxia numa instituição paulista. Para quem não sabe, a quiropraxia é um tipo de massagem/manipulação do corpo, com ajustes nas articulações. Como paciente, já fui estalado várias vezes. O quiroprático estalava minhas vértebras e braços. Há manuscritos chineses de 2700 a.C. que se referem à manipulação articular. Tive um quiroprático velhinho, de origem nipônica, excelente. Nunca fez faculdade. Para que transformar em curso universitário? Óbvio, para depois regulamentar. Criar uma reserva de mercado. Expulsar dela todos os velhinhos orientais e botar na roda jovens universitários. Seria no máximo um curso de extensão para quem fez educação física. Mas daqui a pouco vão exigir diploma. Quem lucra? As universidades.

Está na hora de fazer o contrário. De tirar a exigência de formação universitária para tantos cursos que poderiam ser técnicos. A formação profissional custaria menos, as pessoas entrariam no mercado de trabalho mais depressa. Mas não, só inventam novos cursos. E criam-se nichos e nichos. Estou com medo. Minha avó fazia um maravilhoso pudim com queijo parmesão. Qualquer dia desses dou a receita nas redes sociais. Serei processado por não ter faculdade de gastronomia?

texto época

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Observações

  1. Patrícia Macchia Diz: Fevereiro 21, 2017 at 3:25 pm

    Uma qualificação sempre dá credibilidade ao praticante e seguidor, mas sejamos então justos com todas as profissões e regulamentem os turismólogos, os gastrologos, os hoteleiros e muitos outros que não são “reconhecidos” e portanto desvalorizados pelo mercado de trabalho! Segue quem quer! Qualquer coisa “jogada” na internet precisa ser avaliada e muito bem! Nem tudo da rede é bom e nem digno de ser seguido, vale mais o bom senso do que o diploma…

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