Como Agir Se Você Fez Propaganda Da Carne? Diversos

Publicado na Época
O escândalo da carne levantou uma questão. Como fica quem emprestou seu nome e sua carreira para a propaganda? Como o ator Tony Ramos, a apresentadora Fátima Bernardes e até mesmo o rei da voz, Roberto Carlos, que é vegetariano. É uma situação espinhosa. Na propaganda, tem grande efeito o “testemunhal”, ou seja, a contratação de uma personalidade conhecida para desfiar as maravilhas de um produto. Principalmente se essa personalidade tiver uma imagem confiável, como é o caso, por exemplo, de Tony Ramos e Fátima Bernardes. O testemunhal é tão forte que, em empresas com jornalismo de porte, como o Grupo Globo e a Editora Abril, nenhum repórter, editor ou diretor de redação pode fazer publicidade. Parte-se do princípio de que o jornalista investiga e dá seu testemunho baseado em fatos. Se fizer publicidade, será uma confusão entre a realidade que ele desvenda e a propaganda em si. Mesmo presentes só são aceitos até um patamar modesto. Eu mesmo, quando jornalista de uma revista grande, cheguei a devolver mimos que recebia. Também sei de casos de jornalistas demitidos por manterem uma relação interesseira e material com certo tipo de entrevistado.
No mundo da moda, da televisão, da música, entre os apresentadores, não há essa rigidez. Nem precisa haver, já que todos lidam com fantasia, imaginação. Obviamente, quando uma modelo famosa como Gisele Bündchen aparece na TV mostrando os modelitos de uma coleção popular, mesmo que leve seu nome, não é certeza que use. Claro, com aquele corpo, Gisele enverga qualquer modelo e fica ótima. Mas que ela use direto, sei não… A propaganda, nesse caso, é mais uma maneira de dar uma chancela. Sei de um caso em que uma atriz se recusou a gravar o comercial. Só não menciono o nome dela porque ouvi a história de seu ex-marido. Não foi diretamente, portanto pode haver alguma distorção. O caso é que a atriz, na época já uma estrela das novelas (ainda é), foi gravar uma propaganda de cosmético. Quando ia aplicar o cosmético, a produtora ofereceu:

­– Usa esse outro aqui. Ninguém vai notar e é melhor para sua pele.
– Quer dizer que isso aqui é uma porcaria? – admirou-se a atriz.
Começou a chorar. Não queria divulgar um produto ruim. Não gravou, rompeu o contrato. E nunca mais gravou nenhum comercial.
Também a atriz Grazi Massafera ganhou minha eterna admiração quando foi gravar Verdades secretas, de minha autoria, exibida pela Rede Globo. Grazi foi convidada para o papel de uma viciada em crack. Na mesma época, recebeu outro convite, de uma grande marca de cosméticos, para ser a única da marca no Brasil. Não sei falar de valores, mas posso imaginar que um convite de exclusividade nesse patamar é bem alto.
– Não posso aceitar. Vou fazer uma personagem que exigirá que eu emagreça, fique feia – respondeu a atriz.
Surpresa! A marca resolveu esperar. Grazi arrasou no papel da viciada e foi indicada ao Emmy Internacional de Melhor Atriz, no ano passado. A marca de cosméticos? Após terminada a novela, firmou o contrato de exclusividade.
Em todos esses negócios, o artista assina um papel em branco. Ele entra com seu nome e seu prestígio, confiando que a empresa não fraudará o combinado. Óbvio que nenhum ator ou apresentador terá condições de supervisionar todos os aspectos do trabalho da empresa. Mas, baseado nas garantias que a empresa dá e também no cachê, aceita. Vejam bem: um desavisado pode pensar “o sujeito vai lá, grava três dias e ganha uma fortuna”. Não é bem assim. Ele leva consigo, como Tony Ramos, 50 anos de carreira sólida. Uma vida imaculada. Jamais viveu um escândalo, participou de um golpe, fez negociata. Posso dizer o mesmo de Fátima Bernardes, cuja seriedade ninguém discute. Até de Roberto Carlos, que podem gostar ou não como cantor. Mas golpe, nunca deu.
De repente, vem o escândalo. Ninguém tem falado nisso, mas ele recai também sobre a carreira séria dos artistas. Qual o valor de um testemunhal seu agora? Depois da Friboi, acho que está muito baixo. Só que, como todo mundo sabe, fazer propaganda e merchandising é também uma parte importante da renda do ator ou apresentador.
Como todos nós, eles confiaram. Fecharam um contrato que, repito, tem o valor de uma carreira toda. Minha opinião? Deviam processar essas empresas que os envolveram sem os devidos cuidados éticos. Não se pode brincar com vidas e carreiras tão dignamente construídas.

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