Felicidade Engorda Diversos

Quando menino, minha avó paterna fazia grandes e maravilhosos almoços de Natal. Passava dias assando cabritos, leitões, frangos, rosquinhas, bolos. Tudo no forno de lenha. A família se juntava em torno de várias mesas grudadas umas nas outras. Eu me lembro desses dias de Natal com alegria, amor, felicidade. E comida, muita comida!

É o carma das datas comemorativas. Na Páscoa ainda temos a proposta de um jejum anterior, para diminuir os quilinhos conquistados no grande almoço do domingo. Não que eu faça. A realidade: tradições ajudam a engordar. O coelhinho tem de trazer ovos de Páscoa. Esse coelhinho é um safado: chocolate costuma ficar muito caro nessa época. Os ovos, então, nem se fala. Custam fortunas! E criança sem ovo de Páscoa sofre! Também sofrem os pais veganos, que têm nessas datas um grande enfrentamento dos filhos com a realidade. Existe ovo de Páscoa à base de brócolis? Enfim, a vida do filho de um vegano tem suas limitações. Acredito que, ao completar a maioridade, todos corram para um McDonald’s se entupir de cheeseburger e batata frita. Pelo menos era assim com os herdeiros de macrobióticos, dieta saudável em voga na minha juventude.

Todas essas datas – Páscoa, Dia das Mães, dos Pais, Natal – reúnem as famílias, e os membros devoram tudo o que veem pela frente. Com pretextos. Tipo, aquele que está de regime se farta de lasanha porque a mãe fez, como não prestigiar a mãe? Eu, ai de mim, começo a me entupir de chocolate mais de uma semana antes da Páscoa. Tenho uma espécie de TOC em relação à comida. Um TOC muito comum entre barrigudos. Acho que seguir a tradição dá sorte. Em festa de casamento ou aniversário, faço questão de comer o bolo. No Natal, peru recheado com farofa. Ovo de Páscoa. Me afogo em chocolate.

Também quando menino, já observava que, ao casar, moças engordavam. Maridos também.

– Casou, engordou – dizia minha mãe.

Imagine que casamento engordava porque os pares já não precisavam seduzir um ao outro. Se acomodavam. Bem, talvez. Fato maior: engordavam de felicidade. Até o dia em que ela atirava a panela de brigadeiro no chão e começava a chorar. Ou vice-versa. Na separação? Perdiam peso.

– Emagreceu de tanto sofrimento – também dizia minha sábia mãe, ao deparar com uma vizinha magérrima, cujo marido fugira com outra.

Tristeza faz perder o apetite. Lamentavelmente, isso não acontece com todo mundo. Sou exemplo. Quando me deprimo, como mais. Doces. Aí me sinto melhor. Lembro de minha velha avó, dos almoços de Natal… a comida traz essa recordação afetiva.

Reuniões familiares são por si só uma armadilha. Mas data comemorativa sem família é difícil. Tente passar um Natal sozinho, ouvindo o tilintar dos copos e as risadas no vizinho do lado. Socorro! Durante muitos anos, eu fazia um almoço de Natal para amigos solitários. Quem não tinha família por perto, estava separado, vinha. Prestem atenção. Almoço. Comida! Eu, como anfitrião, só ficava feliz se devorassem cada grão de arroz. Quando mais pesados e barrigudos saíssem, melhor. Na mesa, qual o assunto principal? O menu!

– Esse franguinho está uma delícia.

– Passa o nhoque?

Eu me sentia bem ao proporcionar um dia de felicidade e barriga cheia aos solitários.

Existe uma junção psicológica entre família e comida. A imagem de uma família feliz é em torno de uma mesa. Margarina faz comercial com café da manhã. Data comemorativa igual a reunião familiar. É matemático. Engorda.

Apesar dos padrões esqueléticos de beleza atuais, no fundo identifico saúde com gordura. Alguém com alguns quilinhos a mais parece saudável, de rosto vermelho, sorriso largo. Quem se dá ao luxo de repetir a macarronada está de bem consigo mesmo. Já a magreza excessiva parece meio doentia. Minha mãe também dizia:

– Aquela lá é magra de ruim.

Talvez houvesse nisso certa inveja. Há pessoas que comem como doidas, se empanturram de chocolate e não engordam. Também não têm alterações no colesterol, o fígado fica ótimo por mais que bebam. Essas pessoas me dão raiva, confesso. Por que foram abençoadas pela genética? Podem ter devorado 80 ovos de Páscoa e ainda estão saltitantes.

Não é meu caso. Como comecei a comemorar mais essa data festiva antes do tempo, já estou lutando contra a balança. Os coelhinhos me engordaram. Foram dias ótimos, pois estou almoçando e jantando para festejar há mais de uma semana, como já disse. Pois é. Felicidade pesa na balança.

Texto Originalmente Publicado na Época
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