Quem Fala Por Mim? Diversos

Tenho 65 anos e um profundo descrédito. Sou de uma geração que, certa ou errada, tinha um sonho. Era de esquerda, quando jovem. Está certo, nunca li O capital, mas a maioria dos esquerdistas também não. Li O manifesto do Partido Comunista, mais curtinho, que durante o regime militar circulava de mão em mão. Proibidíssimo. O mundo era mais simples: quem era de direita apoiava os militares. De esquerda, contra. Por causa desse pró e contra, pessoas morriam. O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado na cadeia. Muitos também morreram. Torturados. Eram guerrilheiros. Hoje pode parecer assustador falar que jovens se uniam, em pequenos grupos, como VAR-Palmares, Polop, para combater a ditadura militar. O objetivo era tomar o poder. Com frequência, saía a notícia no jornal: guerrilheiro morto em embate com a polícia. Mentira. Era alguém preso, torturado. Morto na cadeia. Os militares brasileiros até que davam uma disfarçadinha. Na Argentina, botavam em aviões e jogavam no mar, em grupos. Também lá, as mães se uniram em busca de seus filhos. Em um protesto contínuo na Plaza de Mayo, denunciando. Lá, também, muitos bebês eram arrebatados das jovens esquerdistas e adotados pelas famílias militares. As avós até hoje procuram seus netos, em pistas cada vez mais tênues. No Chile, na queda do presidente Salvador Allende, eram tantos presos e torturados que foram postos num estádio de futebol. Mas esses jovens tiveram um papel histórico: denunciaram a brutalidade dos regimes militares. Esses horrores estão na minha memória, assim como o primeiro comício de Lula, no ABC paulista. Eu estive lá. Assim como compareci à missa pela morte de Herzog. Medo da cavalaria.

Mas com o tempo meu lado escritor falou mais alto. À medida que a gente se profissionaliza, nem sempre pode participar de atos políticos. Enfim, o governo militar caiu. Tecnicamente, fez uma passagem pacífica para a democracia. Veio uma nova Constituição, e o país podia respirar. Podia? Durante anos, votei nos partidos de esquerda. Simplesmente por acreditar em justiça social. Por duvidar que um país possa ser feliz com crianças passando fome, gente morando na rua. Se me perguntassem o que eu faria se fosse presidente, diria que não sei. Também não quero ser presidente, deputado, ministro. Reconheço, com orgulho, minhas limitações.

Mas, quando Lula venceu, eu respirei fundo. Ele veio, ninguém pode negar, com um projeto de inclusão social. Fomos o último país a abolir a escravidão. Seremos os últimos em muitas coisas, parece. Porque veio junto essa roubalheira toda, pelo menos segundo o que está sendo denunciado abertamente, com nomes e quantias. Tudo bem. Ninguém pode ser julgado apenas pelas notícias. É preciso passar por um tribunal. Mas as notícias são avassaladoras.

Pior que qualquer denúncia, porém, é a destruição absoluta dos sonhos. A maioria dos partidos não tem um projeto capaz de falar por si. Políticos mudam de sigla como trocam de sapatos. Vão do que era esquerda para a direita, e vice-versa. O PT arruinado pelas acusações. Restam o PSOL e a Rede, embora eu sempre fique com um pé atrás porque Marina Silva é evangélica. Tem posturas firmes, que nem sempre coincidem com as minhas. Mas, se eu falo deles, pelo menos sei o que são. Os outros viraram uma omelete. E grandes ícones da minha juventude – não só Lula – hoje estão envoltos em denúncias. Se me perguntarem em quem votarei nas próximas eleições, direi que não sei. Não tenho a menor ideia, porque nenhum partido me representa. Político, então?

Muita gente briga quando ainda se fala de Lula, apesar das evidências. Dizem que é estar contra a classe trabalhadora. Uma coisa eu sei. Ser contra alguém não é duvidar de uma ideia. Todos, absolutamente todos aqueles que sejam a favor da inclusão social, de uma sociedade mais igualitária, podem ser presos por corrupção. Eu poderia ser o juiz a condená-los diante das provas, e mesmo assim continuaria a acreditar na possibilidade de um mundo melhor.

Meu descrédito não é com a política, mas com os políticos. Há um vácuo de poder, que pode até ser ocupado por um novo candidato messiânico tipo Fernando Collor. Mas também é a chance de aparecer alguém capaz de revigorar os ideais, não digo de uma esquerda antiga, mas de uma sociedade mais justa.

Se esse candidato aparecer, é nele que vou votar. Tenho esperança. Ainda vai aparecer quem fale por mim.

Publicado na Revista Época

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