Um Novo Estilo de Vida Diversos

Jantei com uma amiga famosa: a atriz e jornalista Marília Gabriela. De uns anos para cá, ela mudou radicalmente o estilo de vida. Já não compra roupas como antes, a não ser eventualmente uma peça que lhe chame bastante a atenção. Vendeu o apartamento em Nova York e a casa em Campos do Jordão. Em trabalho, só faz aquilo que gosta, que lhe é visceral. Atualmente faz a peça Constelações, de Nick Payne, com o ator Caco Ciocler, no teatro Tucarena, em São Paulo. Gabi, como é conhecida, já teve uma ofuscante vida social. A mudança, hoje, não é devida a problemas financeiros. Ela vai muito bem, obrigada. Mas a uma nova postura de vida. Não se trata de uma vida espartana. Mas da busca da felicidade fora do consumismo. Li recentemente uma reportagem, na revista GQ americana, em que o jornalista Sean Hotchkiss conta que teve um encontro de uma noite, após uns drinques. De manhã, ela pareceu estranha. Perguntou por quê. A resposta:

– Como você tem mais roupas que qualquer garota que eu conheço? E nenhuma TV?!

Ela foi embora, deixando uma estranha sensação. O rapaz observou seu closet gigante. Iniciou uma transformação. Gosta de ser fashion e mantém isso. Mas com menos. Vendeu e doou roupas antigas. Passou a usar só preto, cinza, branco e azul. Assim, todas as peças combinam. Finalmente… mudou-se para um apartamento sem closet! Eu também sinto essa necessidade de restringir. Há anos criei uma necessidade feroz de comprar roupas. Até recentemente, eu era o delírio dos vendedores. Bastava eu entrar na loja, e já comemoravam. Iam bater a meta.

O mais estranho nesse tipo de comportamento é acreditar inteiramente no vendedor, como se aos olhos dele eu me transformasse no Brad Pitt! Ao provar a peça, ele sempre me dirá:

– Ficou ótimo.

Mesmo que me engorde!

Quando a fatura do meu cartão de crédito bateu nas alturas, resolvi fazer algo a respeito (e nunca vou parecer o Brad Pitt, ok?). Optei por um tratamento com um coach (um tipo de consultor pessoal) para diminuir meu impulso consumista. Resultado surpreendente. Após algumas sessões com a Madalena, minha coach, algo mudou. No final do ano, fui comprar camiseta e bermuda brancas para o Réveillon. Entrei numa loja de uma das grifes que mais gosto. Só na volta, percebi: não me interessara pelos casacos e outras peças. Havia me concentrado na camiseta. E parei de consumir de forma devastadora. Até hoje vendedores me convidam para “tomar um café”. Respondo que estou tentando zerar meu cartão de crédito. Insistem:

– Só um café…

Estratégia. Tenho meus problemas psicológicos, meus traumas. Mas minha carência não chega a tanto. Não confundo tentativa de venda com amizade. Um grande amigo que também é vendedor costumava, entre mensagens normais, enviar fotos das peças novas, pelas quais eu podia me interessar. Pedi:

– Agora você vai decidir se é meu amigo ou está trabalhando. Se o interesse é pessoal, pare de enviar fotos de roupas!

Essas percepções e atitudes estão me ajudando a economizar bastante. Ainda não resolvi a questão dos livros. Sou voraz. Compro mais do que leio. Chegarei lá, já comecei a fazer belas doações a bibliotecas. Uma delas fica numa comunidade paulistana. Já levou caixas e caixas de livros.

Para que tanto, afinal?

Às vezes me sinto como um caramujo carregando uma casa gigantesca nas costas. Há uma questão de status. Quando se começa a buscar menos, as pessoas acham que se está em má situação financeira. E daí? Não estou em crise. Mas se estivesse não seria vergonha nenhuma. Daqui a pouco seleciono meus casacos e vendo pela internet. Ou doo. Ser prático e simples, eis a questão.

A pioneira dessa atitude de vida foi Danuza Leão, que além de escritora exerceu inúmeras atividades, todas com sucesso. Ainda lembro que em um de seus livros aconselhava a servir a mesa com copos diferentes. Óbvio. É quase impossível ter um jogo de taças em que uma não quebre, outra não lasque. Melhor assumir e misturar, do que gastar grana na caça de mais outro e outro. Como simplificar a vida é uma bandeira nos livros de Danuza.

Um amigo meu, suíço, Pierre, produtor de cinema, mudou-se para um apartamento de dois quartos. Poderia viver em lugar bem maior. Simplesmente, assim é mais prático para cuidar.

– Eu vivo com o necessário.

É um novo estilo de vida, em expansão. Resume-se a uma simples frase: ter menos, para possuir mais.
Publicado na Época

walcyr carrasco

Comments

comments


Observações

  1. Fred Arouca Diz: Maio 11, 2017 at 8:40 am

    Nunca esqueço de uma conversa que tive um amigo alemão, que na época, era diretor do intituto Goeth aqui do Rio de Janeiro, o Shutz. Depois que absorvi a idéia dele, vendi o carro.
    Ele me fez calcular quanto gastava com IPVA, garagem, gasolina, multas e todos os gastos que um carro me trazia, considerando, também os perigos de estacionar à noite e de dia pelo Rio eflanelinhas ” marginais”. Além de não poder mais beber e dirigir medida que acho certa hoje, mas que todos nós não
    seguíamos ( Gosto de bebercar).
    Me fez ver que sairia mais barato e mais prudente andar de táxi todo dia tanto pra ir trabalhar quanto para sair pra diversão. Que o táxi posso pega-lo e deixa-lo em qualquer lugar, e que além de mais barato ainda seria mais prático. A partir daí, vendi o carro e apliquei o conselho na minha vida. Digo que me senti bem melhor. E hoje só sinto falta quando quero viajar aqui por perto…
    …E cada vez mais penso em viver com simplicidade.
    Muito bom que esse conceito se propague. Adorei ler sobre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *