Festa No Céu Diversos

São Pedro guarda as chaves da entrada no Paraíso. Decide quem sobe a rampa entre as nuvens e quem pega o elevador para baixo. Para cada um que chega, tecla num site de buscas e pega o currículo do sujeito. Chega o primeiro político – vamos supor, Temer (é uma ordem aleatória, não sei quem vai primeiro. Só sei que um dia todos vamos). Pois bem, Temer está diante das portas do céu. Soletra:

– Mi-chel Te-mer.

São Pedro é velhinho e se recusa a usar óculos. Mas não demora a encontrar a ficha do político.

– Há uma história sobre gravações, dinheiro.

– Tudo fruto de má vontade com meu governo, por conduzir reformas importantes para o país.

– Não se preocupe, aqui sabemos de tudo. Das tensões e intenções. Vai ganhar um superlike.

– Superlike? Mas isso é o céu ou o Tinder?

Temer entra no céu, para a Eternidade. Chega Lula.

– Eu nem acreditava nessa história de céu. Mas, já que estou aqui, vou entrar. Se alguém me barrar, faço uma manifestação, uma passeata dos anjos.

– Calma, calma.

– Tem uma quadrilha contra mim. Sou vítima de falsas acusações.

– Está muito exaltado – diz São Pedro. – Entre de uma vez, aqui no seu dossiê não consta nenhum impedimento.

Lula entra no céu.

Aécio, muito nervoso, aproxima-se. (Não que ele não vá viver muitos anos. Mas na escala da Eternidade o tempo não existe.) São Pedro espanta-se com sua luz.

– Estou radioativo – explica Aécio. – Muitas acusações pegaram contra mim. Todas falsas.

– Aqui tudo se sabe – responde São Pedro, encarando Aécio firmemente.

– Xiiii.

Mais sério ainda, São Pedro mostra.

– Também dizem que houve um problema com a Lei Seca.

– No céu não permitem álcool?

– Só algumas modalidades. O Lula já está lá dentro, tomando caipirinha de néctar.

– Se o Lula entrou, não posso entrar? É injusto.

– Ninguém disse o contrário. Há um apartamento reservado para o senhor, logo abaixo de Zé Dirceu.
– Ele já veio?

– Não, mas torcemos para vir logo – segreda São Pedro.

Aécio entra. Duas anjas lindas o aguardam.

Quase em seguida, chega José Dirceu. São Pedro o recebe graciosamente.

– Demorou para chegar.

– Estava com uns problemas lá na Terra. Ser humano é muito complicado. A gente resolve a vida deles e nos acusam.

– Anjos também são. Há alguns milhares de anos, houve uma rebelião aqui no céu. Estamos preocupados, pode estar sendo preparada outra. Sua experiência política pode ser excelente para nós.

– Vamos começar dando uma harpa de ouro para cada anjo – aconselha Zé Dirceu.
– Isso fará com que todos votem a favor do Supremo.

Um largo sorriso abre-se no rosto de São Pedro. As portas do céu são abertas para o novo morador, que ganha a cobertura do prédio.

Desembarca Dilma, brava.

– Por que o senhor não está no seu lugar para me receber?

São Pedro encolhe-se.

– Fui acompanhar um novo morador…

E dispara:

– Caso seja aceita, precisa emagrecer. Pode ser que a nuvem não suporte seu peso.

– O problema do emagrecimento é uma questão estética que tem a ver com o conceito de uma sociedade que privilegia o uso do corpo, sendo que aqui, uma sociedade imaterial, deve rever seus pressupostos em prol de uma perspectiva do olhar sobre o outro mais adequada e consequente com o propósito celeste.

– Não entendi – intimida-se São Pedro.

– A questão de entender ou não é fruto de uma visão distorcida do significado das palavras que se desdobram…

– Entre! – implora São Pedro, confuso. – Aramaico era mais fácil.

A fila do céu não tem fim. Serra, Alckmin, Renan, cada um é recebido com distinção. Até que um anjinho bem novo, inocente, recém-nascido das estrelas, pergunta a São Pedro.

– Mas são todos inocentes? Mesmo? Todos vêm para o céu?

São Pedro, paciente e sábio, retruca.

– Vá tocar harpa, anjinho. Justamente: para eles, é o céu. O inferno é para o povo.

publicado na Época
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