O Fim da etiqueta Diversos

A cena é conhecida nas novelas. O herói milionário apaixona-se por uma jovem pobre, mas com qualidades suficientes para bater Cinderela no sapatinho de cristal. A vilã rica e má resolve envergonhar a doce heroína. Como? Faz um jantar com etiqueta, para que a pobre moça constrangida tome consciência de que não pertence àquele mundo. Boa parte dos telenovelistas, eu inclusive, já botou no ar um pratinho de escargots, como entrada. Óbvio, a heroína não sabe comer escargots, que devem ser arrancados da casca com um talher especial. Envergonha-se. Oh, que horror, não saber degustar escargots. Oi? Alguém aqui costuma comer? Provavelmente, nem a atriz que faz a vilã. Pior. Dificilmente são encontrados no menu de restaurantes. A maior parte das pessoas, ao descobrir que se trata de um tipo de caramujo, faz cara de nojo. De qualquer forma, hoje em dia bastaria a heroína dizer que é vegana, contentando-se em mastigar umas folhas de agrião. É mais chique ser vegana que comer escargot, acredito. Mais que isso. Já passei por situação semelhante à do escargot. Em um passado distante, no final de um jantar, serviram mangas inteiras, com o talher adequado. Era uma espécie de parafuso, a ser atarraxado no caroço. Depois, cortava-se a manga. Logicamente, na primeira tentativa, minha manga saltou furiosamente em direção ao prato do vizinho. Fui direto:

– Não sei usar talher de manga.

Ninguém morreu de susto. Suspeito que só a anfitriã sabia, porque os convidados pegaram minha deixa e se lambuzaram. E ainda teve quem tirasse fiapos dos dentes com o garfo! Alguém aqui, entre os leitores, já foi a um jantar servido à francesa? Saiu de moda. O copeiro oferece a travessa e cada um serve-se. Primeiro as mulheres, depois os homens. Quando o último bota a comida no prato, a do primeiro está fria. Pior. Todo mundo observa quem é guloso e está mandando ver. Demora horas para servir a todos. Uma chatice. Da etiqueta para se vestir, pouco resta. Em geral, os homens comparecem aos eventos de calça e camisa, confortáveis. E as mulheres, de longos pretos, joias e sapatos cujos saltos simulam elevadores. Não combinam nem com o evento nem entre si.

Existe, sim, uma etiqueta profissional. Cada vez mais em desuso. Não vejo sentido em obrigar executivos a comparecer ao trabalho de terno e gravata para depois gastar fortunas em ar-condicionado, antes que morram assados como frangos de padaria. As agências de publicidade e depois as empresas de internet deram força ao casual confortável. Trabalhar de tênis e camiseta é comum.

Há tempos os muito ricos dizem que chique é ser simples. Bobagem, porque adoram ser ricos e torrar a grana em luxos. Mas as pessoas levaram a ideia ao pé da letra. Eu, por exemplo. Se alguém me visita, pergunto gentilmente.

– Aceita um refrigerante?

– Pode ser.

– Então vai na geladeira e pega. Os copos estão no armário ao lado. Aproveita e traz um para mim também.

Costumo declarar que faço isso para deixar as pessoas à vontade. Mas também é por preguiça. Se jantamos, sempre há alguém que começa a retirar os pratos. Digo:

– Não precisa… mas, já que começou a tirar, bota lá na máquina de lavar louça?

Anteriormente, a regra era complexa. Botava-se uma infinidade de talheres que deviam ser usados de fora para dentro. Hoje, na casa alheia, o comum é o tal serviço americano. Todos os pratos são colocados num local à parte, cada um se serve do que quer e quanto quer, quantas vezes quiser. Os americanos, sempre práticos, inventaram essa forma mais simples de oferecer o jantar. Algum outro povo, mais pão-duro, criou o serviço volante. Em vez de jantar, os garçons andam de um lado para o outro servindo pratinhos com porções mínimas de risoto, escondidinho, ravióli. A gente come, come e não se dá por satisfeito. No meu caso, estou sempre no canto onde os garçons não servem. Às vezes tenho de pegar algum pela manga para conseguir um pratinho. Dizem que é chique. Truque para gastar menos.

Fato é que ninguém dá mais nenhuma importância para as antigas regras de etiqueta. Não é preciso comer à francesa, se quiser errar o talher, tudo bem. Quem dá muita importância a isso é considerado chato. Ou antiquado, do tempo que estrogonofe era prato chique. Errar e rir das antigas regras até cai bem. É o fim da etiqueta, como antes conhecemos. Não seja tímido! Quanto melhor se sentir, melhor será visto. O chique é ser você mesmo.

mesa etiqueta

Publicado na Época

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