O que temos a aprender com Portugal Diversos

Lisboa se tornou uma das cidades mais badaladas do mundo. Estive lá há pouco. Tentei marcar mesa em um restaurante aberto recentemente, e só havia para a semana seguinte. O fluxo de turistas é tão grande que em zonas como o Chiado ouve-se mais inglês que português. Muitos franceses já escolheram: passam metade do ano em Paris, a outra em Lisboa. O fluxo de turistas anual no país é maior do que a população. Portugal ferve!

Até alguns anos atrás, não era assim.

O que operou esse milagre? O exemplo serve para nós, brasileiros? Ah, serve sim!

Desde que os atentados terroristas se intensificaram na Europa, Lisboa tornou-se um porto seguro. Oferece sensação de segurança muito maior que Paris e Londres. A população muçulmana é bem integrada, sem rixas. O clima, mesmo no auge do inverno, é melhor que o de Paris e Londres. A violência é mínima. Pode-se chegar em casa às 2, 3 da manhã, e abrir a porta do prédio tranquilamente. Moradores deixam os carros na rua, durante a noite. Mesmo nas zonas noturnas, como o Bairro Alto, há um clima de segurança geral. Em suma, ninguém tem medo de assaltos. A não ser de batedores de carteiras no metrô. Não é à toa. Há anos o governo português descriminalizou o uso de drogas. Proibido é traficar. Na Praça do Rossio, os turistas são abordados por supostos traficantes de haxixe e cocaína. Um amigo meu comprou o que pensou ser haxixe – mas era chá preto. Compradores de cocaína pagam fortunas por aspirina em pó. Motivo: se presos, argumentam que não estavam vendendo drogas. Como é o tipo de história em que todo mundo tem o rabo preso, compradores enganados também não denunciam. A legalização do uso livrou o país da violência que costuma estar ligada ao consumo. O horror de uma Cracolândia simplesmente não existe. Qualquer debate sobre a liberação das drogas vai ao chão diante do exemplo português. Não se vê gente caindo pelas ruas. Ninguém se defronta com tiroteios entre traficantes. O proibido se torna atrativo, essa é a questão. Em Lisboa, quem usa, usa em paz. Se o consumo é exagerado, a pessoa pode ser conduzida a um centro de tratamento. Se quiser. E quem não usa fica mais em paz ainda.

Há outra ideia genial. Não sei por que as prefeituras brasileiras não absorvem. É o incentivo ao retrofit. Ninguém pode deixar um prédio antigo, tombado, ao abandono. A prefeitura intervém. Há um leilão. O novo proprietário pode reformá-lo por dentro, de maneira moderna. Bota elevadores, muda a planta dos apartamentos. Mas o exterior deve ser restaurado. Como se faz com Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. Não é à toa que a cidadezinha continua linda. Vamos combinar: o Rio de Janeiro é uma das cidades mais lindas do mundo. Seus bairros históricos, como Cosme Velho, e o centro são deslumbrantes. Mas encontram-se aos pedaços. Uma lei desse tipo, incentivando a restauração, só faria bem à cidade. Não digo só por Lisboa. Miami também é superconhecida pelos prédios art déco. O patrimônio arquitetônico do Rio seria incrível se restaurado. Mas não só. São Paulo também tem um centro belíssimo. O apoio legal à restauração, com benefícios, daria uma nova vida à cidade. E podemos continuar com Salvador, Fortaleza…

Finalmente, Portugal tomou outra medida: o Visto Dourado. Quem compra um imóvel acima de € 500 mil ganha o direito de residência. Mais tarde, esse direito pode ser convertido em nacionalidade portuguesa. Resultado: uma população inteira de chineses, coreanos, indianos e brasileiros comprou apartamento em Lisboa. Além de uma cidade agradável, é um ponto de partida central para a Europa e os Estados Unidos. Algumas horas de carro, e já se está em outro continente, no Marrocos. O mundo, enfim, é logo ali.

Não se pode negar. O que botou Lisboa no pico do turismo mundial foram as decisões de políticas públicas acertadíssimas. Lisboa se tornou mais atraente em poucos anos. O Rio de Janeiro perde centenas de turistas cada vez que um deles sofre violência e se torna manchete mundial. Costumo acreditar que tudo isso resulta de um populismo exacerbado. A política brasileira contra as drogas é um fracasso que consome vidas e dinheiro. Mas, para o político, é mais fácil adotar um discurso mentiroso do que uma solução progressista. Também é mais lucrativo, no curto prazo, derrubar prédios antigos em prol da especulação do que valorizar o patrimônio arquitetônico da cidade. Direito de residência? Quem se habilita a discutir?

Nunca é tarde.

Publicado na Época

Chegou a hora de aprender com o exemplo português.galeria-porto-portugal-credito-thinkstock-465130576

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Observações

  1. Bom dia!
    Aprender com o exemplo português???
    1) em matéria de combate às drogas, Portugal apenas copiou – e melhorou, em alguns aspetos – o que foi feito na Holanda. Esse sim foi o país pioneiro e merece ter esse mérito.
    2) é verdade que, se comparado com a ruína que se observa no Brasil, a preservação da arquitectura nas cidades portuguesas parece ser mais eficaz. Mas é uma pura ilusão. Se quer conhecer um país onde a sociedade e o poder publico se unem para preservar e cuidar dos edifícios antigos, não é necessário ir muito longe: Espanha. esse sim é o exemplo que deve ser seguido!
    3) é verdade, Lisboa se tornou uma capital cosmopolita e atraente para os estrangeiros, mas isso tem um custo alto, que é acentuar a miséria que uma larga camada dos portugueses está a sofrer. Ela não é visivel porque os Portugueses, por cultura e feitio, têm tendencia a esconder essa miséria e fingir que tudo está bem. Mas, se raspar a casca, o podre aparece.
    4) o resultado liquido do Visto Dourado é Portugal se ter convertidoto num refúgio legal para bandidos e corruptos internacionais (ex. juiz Gilmar Mendes do STF), para além de abastecer os cofres de impostos e enriquecer algumas imobiliárias. Seria muito mais positivo se em vez de mera compra de imobiliário, fosse um investimento em industria e inovação tecnológica que possibilitasse “ganhar” a nacionalidade portuguesa, como prémio. Aí sim!

    No geral, a sociedade portuguesa caminha num sentido que os Brasileiros já conhecem bem, infelizmente: uma profunda desigualdade social.

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