A Nova Onda Emigratória Diversos

Afugentado pela falta de emprego no Rio de Janeiro, um amigo juntou as últimas economias, conseguiu o visto americano nem sei como e foi para Nova York. Tinha amigos lá. Chegou e – surpresa! – existe até uma agência de empregos para quem não tem visto de trabalho. Um dia depois de chegar, candidatou-se a uma vaga de faz-tudo em um restaurante. Passara meses procurando algo no Brasil. Dois dias após o desembarque nos Estados Unidos, estava empregado. É trabalho duro. Limpa tudo. Lava pratos. Arruma mesas. Trabalha dez horas por dia. Está feliz.

– Eu até trabalharia em algo semelhante no Brasil. Mas pagam pouco. Aqui, faço US$ 2 mil por mês e vivo com dignidade.

Além disso, conhece restaurantes maravilhosos (de vez em quando). Falando inglês. Na mão contrária, outro amigo batalha vaga de vendedor no Rio de Janeiro. Tentou um shopping center elegante, de grifes.

– Aquilo lá era sustentado pelos réus da Lava Jato. Agora, não tem mais comprador. A gente passa e os vendedores esticam os pescoços, na esperança de ver cliente.

Nova York é destino certo na nova onda emigratória. Los Angeles também. Muitos sonham em deslanchar a carreira artística em Hollywood. Só acontece quem já brilhou por aqui, como Rodrigo Santoro, Wagner Moura, Sônia Braga e Alice Braga. Mas tentam. Enquanto isso, muitos posam nus para fotos. Sob o rótulo genérico e muitas vezes mal aplicado de “modelos”, rapazes brasucas tiram a roupa para a mulherada, em shows. Outros lavam prato mesmo – o emprego mais comum. A comunidade brasileira em Miami é enorme. Muitos são mais ou menos comerciantes, viram-se com trabalhos esporádicos. A Irlanda também atrai uma galera. É fácil arrumar emprego, o país é caloroso. Paris, quem não quer viver em Paris? Um conhecido foi. Sofreu nos primeiros meses. O dono de um restaurante no sul da França o levou para lá. É trabalho braçal. Nas horas vagas, pinta paredes.

– Só volto se juntar dinheiro para montar um negócio.

Uma mulher me escreve: passou 20 anos no Japão. Trabalhou muito, mas criou o filho por lá. Agora, ele não quer nem visitar o Brasil! Outra, de classe média do Paraná, foi para Portugal. Mora numa pequena cidade distante de Lisboa. É prostituta. A idade está chegando, mas não pensa em voltar. Acha que em Portugal a profissão é respeitada. Assim como na Holanda e na Suíça. Não é à toa que Paulo Coelho escreveu 11 minutos. O livro conta a história de uma prostituta brasileira em Genebra – seus pensamentos sobre sexualidade, sem sobressaltos, a não ser os emocionais.

Na nova onda emigratória, há todo tipo de profissional. Jovens de boa formação tentam o Canadá. O país dá visto de trabalho e mais tarde definitivo. Para quem tem boa formação educacional. Ou seja: a pessoa estuda no Brasil, provavelmente em uma excelente universidade pública. Depois que o país gastou dinheiro em sua formação, ela parte em busca de oportunidades. Nada contra do ponto de vista da liberdade individual. Mas os estudos não foram pagos com meus impostos? Bem… fico feliz por ajudar a economia do Canadá!

Essa leva de garçons, faxineiras, chapeiros estudou também. Quando não cursaram universidade completa, têm no mínimo ensino médio. Vão dar lucro para empresas pelo mundo afora, que até gastam menos porque são ilegais. O que foi gasto pela coletividade no Brasil na formação deles? Perda total.

O outro tipo de emigrante é o que já tem patrimônio. Mudam-se para fugir da violência. Lá fora, é possível viver bem com muito menos. Até com aposentadoria! Em muitos casos, ainda contam com a saúde pública do novo país. Enquanto aqui, é preciso pagar um seguro-saúde. Ah, sim. As empresas da área não vendem mais planos individuais. Devia ser obrigatório. Mas não é. Criou-se um plano “empresarial” onde cabe uma família. A diferença é que esse pode mudar de preço em função do uso, ao contrário do individual, que existia anteriormente. Um truque. Quem, mesmo com a vida feita, prefere viver em um país onde o truque é a regra?

Surpresa: o México tornou-se uma meca para modelos. Campanhas internacionais são feitas por lá. Brasileiros vão com a certeza de ganhos promissores. Assim como na China e em todo o Oriente. Modelo brasileiro fatura bem!

Destinos múltiplos. Emigração disfarçada. Boa parte entra no outro país com visto de turista. Depois, fica ilegal. O que  dizer a tantos jovens para ficar? Não tenho palavras. Neste momento, ninguém acredita que há futuro neste país do futuro.

 

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Publicado na Época

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Observações

  1. É Walcir, sempre matando a pau. Como professor universitário de universidade pública, é isso mesmo que vejo. Os melhores alunos vão para o exterior, até com bolsas do Brasil e depois acabam ficando por lá. Só nós não vemos que gastamos para formar os melhores e depois entregamos de mão beijada. EU, Alemanha, Austrália etc não se importam de “importar” bons profissionais. Sai de graça. Até eu! Do lado dos jovens profissionais, acho que eles estão bem certos. Se você vai a um desses lugares citados e vê como o país (povo) é organizado, respeita leis, regras e o bem público, não vai querer voltar para o Brasil. Na Austrália, você não escuta cachorro latir à noite, soube que eles vão pra escola aprender a se comportar. Não dá pra voltar, dá?

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