Monsieur d’Eon é homem ou mulher? Diversos

Houve um tempo em que a grande curiosidade de cada estação era o comprimento das saias. Hoje, é a questão de gênero. Parte delicada desse tema trata do homem que nasce em corpo de mulher e vice-versa, com todas as nuances da aceitação social e da transformação física. Abordada brilhantemente na novela A força do querer, de Gloria Perez, da TV Globo, a questão tornou-se a aleluia do politicamente correto. O que me irrita é uns agirem como se a questão houvesse surgido agora e fosse novidade, e outros como se fosse sinal do fim dos tempos. Pedagogos, psicólogos, médicos e psiquiatras fecharam os olhos à questão até entrar em moda. Muitos são ignorantes – ditam teorias sem sequer tocar em referências históricas sobre o tema. Alguém se lembra do filme Minha vida em cor-de-rosa (Ma vie en rose), de Alain Berliner, de 1997? Passou batido aqui no Brasil. Mas fala justamente de um menino, Ludovic (George du Fresne), que, apesar da rejeição da família, insiste em assumir identidade feminina. Estava lá, com todo o seu vigor, colocada a questão de gênero. Ninguém se importou. Intelectuais adoram uma moda, não?

 

Também é bom lembrar, o filme jamais poderia ter sido realizado no Brasil. Um batalhão de educadores e psicólogos, entrincheirados em ONGs, não permitiria que um ator mirim representasse Ludovic. Insistiriam que o papel poderia prejudicar a formação do pequeno ator. Como se alguém fosse capaz de mudar de gênero simplesmente por atuar em um filme. Ô vida! Mas a lei proíbe, sabiam? Talvez os franceses entendam menos de educação infantil do que nós, já que lá o filme foi realizado sem problemas.

Vou refrescar a memória de quem hoje trata o tema como moda e amanhã esquecerá dele. A questão de gênero é historicamente documentada pelo caso de Monsieur d’Eon, durante o reinado de Luiz XV, no século XVIII. Sua vida é retratada em um belíssimo livro de Gary Kates, Monsieur d’Eon é mulher. Diplomata, espião, esgrimista, atuante na Corte francesa, militar condecorado. Repentinamente, na meia-idade, declarou-se mulher. Em 1775, o rei reconheceu sua condição feminina, desde que passasse a vestir-se exclusivamente como mulher. E lhe forneceu uma pensão vitalícia anual. D’Eon deixou as companhias masculinas e passou a se comportar como uma das damas da Corte. Antes da decisão real, agitou a bolsa de apostas de Londres (d’Eon lutou na Guerra dos Sete Anos, que opôs França e Inglaterra. Foi a Londres em 1762 negociar o acordo de paz e viveu depois na cidade como diplomata). Acredita-se que 60 mil libras foram gastas em apostas sobre seu sexo. Uma grana. E o burburinho das apostas deve ter sido muito mais divertido do que o cuidado com que hoje se é obrigado a falar da questão de gênero. Outro dia, disse uma palavra qualquer, inadvertida, e um amigo me acusou de preconceituoso. Há uma agressividade quando um tema entra em moda. A mínima palavra fora do politicamente correto se transforma em anátema.

Reconhecido publicamente como mulher, Monsieur d’Eon, tornado Madame d’Eon em meados de 1790, vivia na Inglaterra, onde havia sido embaixador da França, ainda quando assumia a identidade masculina. Ferido em um torneio, não teve condições de retornar à França. Foi sua sorte. Na Revolução, dois anos depois, certamente teria sido decapitado. Mas perdeu sua pensão vitalícia. Passou os últimos dez anos de vida na miséria. Escreveu muito, deixou cerca de 2 mil páginas. Assinou contrato para uma autobiografia, nunca publicada. Uma lástima. No pouco que escreveu sobre si mesma, retratava-se como uma mulher que passou parte da vida como homem. Enfatizava sua condição de virgem. A mudança de gênero não era questão de orientação sexual. Mas quase uma experiência religiosa. Afirmou: “Minha transformação é um milagre devido não à vontade dos homens, mas à vontade de Deus…”.

Numa época anterior aos hormônios, havia quem achasse seus traços excessivamente masculinos. Sua melhor amiga e confidente, a duquesa de Montmorency-Beauville, a tratava sempre como mulher. Madame morreu com 82 anos.

Só então descobriram: possuía o aparelho genital masculino.

Elegante e discreta, nunca quisera se submeter a um exame em vida. Acreditava que o gênero era o que a própria pessoa se atribuía. Lá se vão 250 anos e, ainda hoje, há quem se digladie e se impressione porque Angelina Jolie e Brad Pitt criam corretamente sua filha Shiloh, de 11 anos, que se veste de menino e insiste em ser chamada de John.

 

Publicado na Época

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